segunda-feira, 19 de maio de 2008

Use-se!

*Ao som de: Saber voar - Chimaruts.


Modo de usar-se.

"Coitada, foi usada por aquele cafajeste". Ouvi essa frase na beira da praia, num papo que rolava no guarda-sol ao lado.
Pelo visto a coitada em questão financiou algum malandro, ou serviu de degrau para um alpinista social, sei lá, só sei que ela havia sido usada no pior sentido, deu pra perceber pelo tom do comentário.
Mas não fiquei com pena da coitada, seja ela quem for. Não costumo ir atrás desta história de "foi usada".
No que se refere a adultos, todo mundo sabe mais ou menos onde está se metendo, ninguém é totalmente inocente. Se nos usam, algum consentimento a gente deu, mesmo sem ter assinado procuração. E se estamos assim tão desfrutáveis para o uso alheio, seguramente é porque estamos nos usando pouco.
Se for este o caso, seguem sugestões para usar a si mesmo: comer, beber, dormir e se exercitar, nossas quatro necessidades básicas, sempre com segurança, mas também sem esquecer que estamos aqui para nos divertir.
Usar-se nada mais é do que reconhecer a si próprio como uma fonte de prazer.
Dançar sem medo de pagar mico, dizer o que pensa mesmo que isso contrarie as verdades estabelecidas, rir sem inibição – dane-se se aparecer a gengiva. Mas cuide da sua gengiva, cuide dos dentes, não se negligencie. Use seu médico, seu dentista, sua saúde.
Use-se para progredir na vida.
Alguma coisa você já deve ter aprendido até aqui. Encoste-se na sua própria experiência e intuição, honre sua história de vida, seu currículo, e se ele não for tão atraente, incremente-o. Use sua voz: marque entrevistas. Use sua simpatia: convença os outros.
Use seus neurônios: pra todo o resto.
E este coração acomodado aí no peito? Use-o, ora bolas. Não fique protegendo-se de frustrações só porque seu grande amor da adolescência não deu certo. Ou porque seu casamento até-que-a-morte-os-separe durou "apenas" 13 anos. Não enviuve de si mesmo, ninguém morreu.
Use-se para conseguir uma passagem para a Patagônia, use-se para fazer amigos, use-se para evoluir.
Use seus olhos para ler, chorar, reter cenas vistas e vividas – a memória e a emoção vêm muito do olho. Use os ouvidos para escutar boa música, estímulos e o silêncio mais completo.
Use as pernas para pedalar, escalar, levantar da cama, ir aonde quiser.
Seus dedos para pedir carona, escrever poemas, apontar distâncias.
Sua boca pra sorrir, sua barriga para gerar filhos, seus seios para amamentar, seus braços para trabalhar, sua alma para preencher-se, seu cérebro para não morrer em vida.

Use-se.
Se você não fizer, algum engraçadinho o fará. E você virará assunto de beira de praia.


(Martha Medeiros.)

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Amor...

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Eu quero todo clichê de um amor piegas com todas as cafonices devidas e anotações de declarações rasgadas em um papel qualquer.
Eu quero amor no seu sentido literal, doentio e devastador,que chegue causando buraco no peito e noite de insônia,perguntas não quistas de amores passados.
“Eu quero saber quem te levou pra cama e quem te deixou lá” e amaldiçoar seus ex-casos, rasgar suas fotos e tornar o seu quarto, um memorial do meu amor.
Sim, eu quero trilha sonora do Chico e “Último Romance” recitado, quase berrado ao pé do meu ouvido de manha, com a minha cara inchada e o seu bafo, com café da manha no Tentação do Mate e reclamações sobre a minha saia e o meu comportamento extremamente evasivo com os meus amigos.
Eu quero brigas, xingamentos altos e reclamações de vizinhos, quero andar pela praia quando eu estiver entediada e quero ser acordada de madrugada para apagar a luz da varanda. Eu quero amar até o amor cair doente, quase morto, implorando por liberdade e quero traumas, quero que ouçam nossas histórias e cansem do seu nome, mas antes de tudo, quero que você esteja lá para não me deixar acabar com o amor.
Eu quero a calmaria e o caos do relacionamento, quero a sinceridade e a dor de se amar com as entranhas, quero a paz e o ciúme suicida, quero o amor não inventado, mas acordando, de cara inchada, atrasado, de olheira, todos os dias. Do meu lado!

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Louise.

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Deitada na cama, braços abertos, totalmente prostrada, Louise olhava seus sintomas, um por um, contemplava-os, escrutava-os, enumerava-os. Passava em revista. Uma lista, é isso, podia fazer uma lista. Não se poupava nada. Rigor clinico. Afastava os dedos, mexia as pernas e os dedos dos pés... Um, dois, três, contava... Dez, vinte... E dormir mal, e comer mal, e nenhum equilíbrio, você não tem nenhum equilíbrio, minha pobre Louise, e os seus eternos pesadelos são de um ridículo. Na sua idade. Vinte e cinco anos, e pesadelos desses.
Louise se levantou para se olhar no espelho, fez uma careta horrorosa, e disse em voz alta: E feia para completar.
Não é possível, pensou Louise. O tempo que você perde em se detestar, minha pobre moça. Não é possível.
Realmente assim não dá, Louise quase berrou.
E incapaz de se manter num trabalho, nem nesses que só servem para encher o bucho. Você briga com todo mundo.
Deu um pulo e ficou em pé. Da última vez foi mais que justificado.
Aquele cara safado.
Mas da penúltima vez... também. Aliás, que se dane.
E quando alguém lhe propõe um papel, novamente ela sacudia a cabeça diante do espelho, e você sabe que o representaria muito bem, melhor que qualquer um, mais que bem, que poderia ser genial, então fica com tanto medo de não conseguir que o recusa.
Você está perdendo tempo. Louise se sentou na cama, furiosa e paralisada de angústia. O tempo, mas não se pode recuperar o tempo. E você fica aí, a desperdiçá-lo, a perdê-lo.
Começou a chorar.
Bem, disse Louise afinal, bem. Não é possível. Tudo isso eu sei. Ora essa. Mas o que é que esse cara está fazendo?
Minha vida, Louise pensava também. Parece um mau romance.
Conhecendo o começo, dá para deduzir o resto. É lamentável.
(...)


- Um trecho de "O psicanalista" escrito por Leslie Kaplan.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Dog Freud

*Ao som de:
Ali - Skank



Feriado. A família viaja, busca sossego. Eu permaneço.
De sossego já estou farta, não suporto mais senti-lo.
Não vou negar que sou uma pseudo-velha, principalmente nas noites de inverno, mas a jovenzinha trouxa que existe em mim, ainda grita me fazendo entender, que por mais que eu a tente matar diariamente com doses bombásticas de seriedade e racionalidade, ela não morrerá.
Não é hora dela partir, e por isso tudo que é ilusório a desperta em mim, me fazendo mais sensível que o normal, mais chata que o normal e mais tagarela, bem mais tagarela que o normal.
Coisa de jovenzinha trouxa mesmo, que perde semanas falando do carinha novo que conheceu, do amor antigo que não curou, do porre gigantesco que tomou, para tentar aliviar dores minúsculas que vistas do penhasco em que eu as coloco, parecem monstruosamente grandes.
Aliás, esse negócio de beber para curar dores, é pura desculpinha de mulher racional que não assumi que bebe por diversão, pra que a trouxinha se liberte e arrume complexos existênciais e amorosos que ocupem seus dias cinzas de mulher séria, os ouvidos das amigas queridas, e o scrap boock das mesmas.
E nesse momento me sinto grata, por ter a sorte de ter encontrado-as. E não preciso citar nomes para saber quem são, afinal, elas se encaixam nos mesmos problemas que eu, talvez com menos intensidade, menos loucura e menos expressão externa, mas ainda assim os mesmos problemas.
Feriado. A família viaja, busca sossego. Eu permaneço.
De sossego já estou farta, não suporto mais senti-lo.
Nem eu, nem o cachorro que me acompanha todos os dias.E digo que hoje ele se sente bem mais feliz, por eu ter encontrado as já citadas e recitadas amigas, assim ele se livra do martírio diário de me ouvir incessantemente.



*Nota da autora: meu cachorro é quase Freud, todos o consideram louco, mas eu nem ligo.