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Chegou tomando conta de tudo. Eu tentei quebrar suas regras, sair na noite, achar alguém legal para dividir minha vida e uma cerveja.
Mas ela não me deu chance.
A solidão me deixou em casa sábado a noite, vendo pela terceira vez o mesmo filme, pensando que isso tudo é muito injusto, e que sorte é como o amor, somente alguns tem.
E logo eu, que nunca fui dotada de sorte, teimo em querer o amor.
AMOR com letra maiúscula, que chegue gritando meu nome, acordando os vizinhos, e que não me deixe em casa sábado a noite vendo sozinha o mesmo filme pela terceira vez.
Mas a solidão conhece todos os cômodos da casa e a encontro onde quer que eu vá. Não que eu a procure, mas acho que ela gosta de deixar a sua grande entrada para o final, é sempre no fim da festa, no fim da conversa, no fim da música, e no fim do texto que ela gosta de aparecer para me torturar.
E aí está ela, gritando sua presença pela casa inteira (como se precisasse).
E aqui estou eu, usando as lembranças como esconderijo (como se adiantasse).
quarta-feira, 30 de julho de 2008
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Os excluídos.
Ao contrário do que o título desta crônica possa sugerir, não vou falar sobre aqueles que vivem à margem da sociedade, sem trabalho, sem estudo e sem comida.
Quero fazer uma homenagem aos excluídos emocionais, os que vivem sem alguém para dar as mãos no cinema, os que vivem sem alguém para telefonar no final do dia, os que vivem sem alguém com quem enroscar os pés embaixo do cobertor.
São igualmente famintos, carentes de um toque no cabelo, de um olhar admirado, de um beijo longo, sem pressa pra acabar.
A maioria deles são solteiros, os sem-namorado.
Os que não têm com quem dividir a conta, não têm com quem dividir os problemas, com quem viajar no final de semana.
É impossível ser feliz sozinho?
Não, é muito possível, se isso é um desejo genuíno, uma vontade real, uma escolha.
Mas se é uma fatalidade ao avesso - o amor esqueceu de acontecer - aí não tem jeito: faz falta um ombro, faz falta um corpo.
E há aqueles que têm amante, marido, esposa, rolo, caso, ficante, namorado, e ainda assim é um excluído.
Porque já ultrapassou a fronteira da excitação inicial, entrou pra zona de rebaixamento, onde todos os dias são iguais, todos os abraços, banais, todas as cenas, previsíveis.
Não são infelizes e nem se sentem abandonados. Eles possuem um relacionamento constante, alguém para acompanhá-los nas reuniões familiares, alguém para apresentar para o patrão nas festas da empresa. Eles não estão sós, tecnicamente falando.
Mas a expulsão do mundo dos apaixonados se deu há muito. Perderam a carteirinha de sócios.
Não são mais bem-vindos ao clube.
Como é que se sabe que é um excluído?
Vejamos: você passa por um casal que está se beijando na rua - não um beijinho qualquer, mas um beijo indecente como tem que ser, que torna tudo em volta irrelevante - você inclusive.
Se lhe bate uma saudade de um tempo que parece ter sido vivido antes de Cristo, se você sente uma fisgada na virilha e tem a impressão que um beijo assim é algo que jamais se repetirá em sua vida, se de certa forma este beijo que você assistiu lhe parece um ato de violência - porque lhe dói - então você está fora de combate, é um excluído.
A boa notícia: você não é um sem trabalho, sem estudo e sem comida - é apenas um sem-paixão.
Sua exclusão pode ser temporária, não precisa ser fatal.
Menos ponderação, menos acomodação, e olha só você atualizando sua carteirinha.
O clube segue de portas abertas.
-
Mais um da Martha.
Ao contrário do que o título desta crônica possa sugerir, não vou falar sobre aqueles que vivem à margem da sociedade, sem trabalho, sem estudo e sem comida.
Quero fazer uma homenagem aos excluídos emocionais, os que vivem sem alguém para dar as mãos no cinema, os que vivem sem alguém para telefonar no final do dia, os que vivem sem alguém com quem enroscar os pés embaixo do cobertor.
São igualmente famintos, carentes de um toque no cabelo, de um olhar admirado, de um beijo longo, sem pressa pra acabar.
A maioria deles são solteiros, os sem-namorado.
Os que não têm com quem dividir a conta, não têm com quem dividir os problemas, com quem viajar no final de semana.
É impossível ser feliz sozinho?
Não, é muito possível, se isso é um desejo genuíno, uma vontade real, uma escolha.
Mas se é uma fatalidade ao avesso - o amor esqueceu de acontecer - aí não tem jeito: faz falta um ombro, faz falta um corpo.
E há aqueles que têm amante, marido, esposa, rolo, caso, ficante, namorado, e ainda assim é um excluído.
Porque já ultrapassou a fronteira da excitação inicial, entrou pra zona de rebaixamento, onde todos os dias são iguais, todos os abraços, banais, todas as cenas, previsíveis.
Não são infelizes e nem se sentem abandonados. Eles possuem um relacionamento constante, alguém para acompanhá-los nas reuniões familiares, alguém para apresentar para o patrão nas festas da empresa. Eles não estão sós, tecnicamente falando.
Mas a expulsão do mundo dos apaixonados se deu há muito. Perderam a carteirinha de sócios.
Não são mais bem-vindos ao clube.
Como é que se sabe que é um excluído?
Vejamos: você passa por um casal que está se beijando na rua - não um beijinho qualquer, mas um beijo indecente como tem que ser, que torna tudo em volta irrelevante - você inclusive.
Se lhe bate uma saudade de um tempo que parece ter sido vivido antes de Cristo, se você sente uma fisgada na virilha e tem a impressão que um beijo assim é algo que jamais se repetirá em sua vida, se de certa forma este beijo que você assistiu lhe parece um ato de violência - porque lhe dói - então você está fora de combate, é um excluído.
A boa notícia: você não é um sem trabalho, sem estudo e sem comida - é apenas um sem-paixão.
Sua exclusão pode ser temporária, não precisa ser fatal.
Menos ponderação, menos acomodação, e olha só você atualizando sua carteirinha.
O clube segue de portas abertas.
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Mais um da Martha.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
“Será que é difícil entender,
porque eu ainda insisto em nós?
Vem, vem meu amor... as flores estão no caminho.
Vem, vem andar comigo!”
Eu sei, é difícil sim entender porque eu ainda insisto em nós.
Eu digo que desisto dessa história, peço para que as amigas não falem mais de você, que deixem a lembrança do teu ser quietinho dentro de mim, para não despertar essa coisa, que nem sei como chamar alem de, sentimento temporariamente indefinido.
E falo que vou sair desse ciclo vicioso, que quero outra vida, longe, bem longe, dessa irrealidade toda que tenho vivido nos últimos meses.
Por fim, digo veementemente que estou cansada de todo esse bla bla bla, e então, nessa hora, fico procurando onde se escondeu a coragem (e a vontade) de te tirar da minha vida.
E antes que eu as ache, chega você, me dando bom dia, com essas palavras simples (que eu adoro).
Instantaneamente, em meio as olheiras, surge um sorriso gigante, fazendo desaparecer aquela velha e repetida historia de te esquecer.
E escrevo isso tudo, só porque eu queria gritar para que o mundo soubesse, que eu quero, quero muito que você seja real, e que você venha andar comigo.
Mas se esse texto soar baixinho, e esse negocio de gritar para o mundo não funcionar, nao tem problema, eu posso arrumar outro jeito de te dizer tudo isso. Mimica, sinal de fumaça ou código morse... quando eu encontrar a coragem, eu decido!
Mesmo nao sendo primavera, se você quiser andar comigo, as flores sempre vão estar no caminho.
porque eu ainda insisto em nós?
Vem, vem meu amor... as flores estão no caminho.
Vem, vem andar comigo!”
Eu sei, é difícil sim entender porque eu ainda insisto em nós.
Eu digo que desisto dessa história, peço para que as amigas não falem mais de você, que deixem a lembrança do teu ser quietinho dentro de mim, para não despertar essa coisa, que nem sei como chamar alem de, sentimento temporariamente indefinido.
E falo que vou sair desse ciclo vicioso, que quero outra vida, longe, bem longe, dessa irrealidade toda que tenho vivido nos últimos meses.
Por fim, digo veementemente que estou cansada de todo esse bla bla bla, e então, nessa hora, fico procurando onde se escondeu a coragem (e a vontade) de te tirar da minha vida.
E antes que eu as ache, chega você, me dando bom dia, com essas palavras simples (que eu adoro).
Instantaneamente, em meio as olheiras, surge um sorriso gigante, fazendo desaparecer aquela velha e repetida historia de te esquecer.
E escrevo isso tudo, só porque eu queria gritar para que o mundo soubesse, que eu quero, quero muito que você seja real, e que você venha andar comigo.
Mas se esse texto soar baixinho, e esse negocio de gritar para o mundo não funcionar, nao tem problema, eu posso arrumar outro jeito de te dizer tudo isso. Mimica, sinal de fumaça ou código morse... quando eu encontrar a coragem, eu decido!
Mesmo nao sendo primavera, se você quiser andar comigo, as flores sempre vão estar no caminho.
terça-feira, 1 de julho de 2008
A Raça dos Desassossegados.
À raça dos desassossegados pertencemos todos, negros e brancos, ricos e pobres, jovens e velhos, desde que tenhamos como característica desta raça comum, a inquietação que nos torna insuportavelmente exigentes com a gente mesmo e a ambição de vencer não os jogos, mas o tempo, este adversário implacável.
Desassossegados do mundo correm atrás da felicidade possível, e uma vez alcançado seu quinhão, não sossegam: saem atrás da felicidade improvável, aquela que se promete constante, aquela que ninguém nunca viu, e por isso sua raridade.
Desassossegados amam com atropelo, cultivam fantasias irreais de amores sublimes, fartos e eternos, são sabidamente apressados, cheios de ânsias e desejos, amam muito mais do que necessitam e recebem menos amor do que planejavam.
Desassossegados pensam acordados e dormindo, pensam falando e escutando, pensam ao concordar e, quando discordam, pensam que pensam melhor, e pensam com clareza uns dias e com a mente turva em outros, e pensam tanto que pensam que descansam.
Desassossegados não podem mais ver o telejornal que choram, não podem sair mais às ruas que temem, não podem aceitar tanta gente crua habitando os topos das pirâmides e tanta gente cozida em filas, em madrugadas e no silêncio dos bueiros.
Desassossegados vestem-se de qualquer jeito, arrancam a pele dos dedos com os dentes, homens e mulheres soterrados, cavando uma abertura, tentando abrir uma janela emperrada, inventando uns desafios diferentes para sentir sua vida empurrada, desassossegados voltados pra frente.
Desassossegados desconfiam de si mesmos, se acusam e se defendem, contradizem-se, são fáceis e difíceis, acatam e desrespeitam as leis e seus próprios conceitos, tumultuados e irresistíveis seres que latejam.
Desassossegados têm insônia e são gentis, lhes incomodam as verdades imutáveis, riem quando bebem, não enjoam, mas ficam tontos com tanta idéia solta, com tamanha esquizofrenia, não se acomodam em rede, leito, lamentam a falta que faz uma paz inconsciente.
Desta raça somos todos, eu sou, só sossego quando me aceito.
Martha Medeiros.
À raça dos desassossegados pertencemos todos, negros e brancos, ricos e pobres, jovens e velhos, desde que tenhamos como característica desta raça comum, a inquietação que nos torna insuportavelmente exigentes com a gente mesmo e a ambição de vencer não os jogos, mas o tempo, este adversário implacável.
Desassossegados do mundo correm atrás da felicidade possível, e uma vez alcançado seu quinhão, não sossegam: saem atrás da felicidade improvável, aquela que se promete constante, aquela que ninguém nunca viu, e por isso sua raridade.
Desassossegados amam com atropelo, cultivam fantasias irreais de amores sublimes, fartos e eternos, são sabidamente apressados, cheios de ânsias e desejos, amam muito mais do que necessitam e recebem menos amor do que planejavam.
Desassossegados pensam acordados e dormindo, pensam falando e escutando, pensam ao concordar e, quando discordam, pensam que pensam melhor, e pensam com clareza uns dias e com a mente turva em outros, e pensam tanto que pensam que descansam.
Desassossegados não podem mais ver o telejornal que choram, não podem sair mais às ruas que temem, não podem aceitar tanta gente crua habitando os topos das pirâmides e tanta gente cozida em filas, em madrugadas e no silêncio dos bueiros.
Desassossegados vestem-se de qualquer jeito, arrancam a pele dos dedos com os dentes, homens e mulheres soterrados, cavando uma abertura, tentando abrir uma janela emperrada, inventando uns desafios diferentes para sentir sua vida empurrada, desassossegados voltados pra frente.
Desassossegados desconfiam de si mesmos, se acusam e se defendem, contradizem-se, são fáceis e difíceis, acatam e desrespeitam as leis e seus próprios conceitos, tumultuados e irresistíveis seres que latejam.
Desassossegados têm insônia e são gentis, lhes incomodam as verdades imutáveis, riem quando bebem, não enjoam, mas ficam tontos com tanta idéia solta, com tamanha esquizofrenia, não se acomodam em rede, leito, lamentam a falta que faz uma paz inconsciente.
Desta raça somos todos, eu sou, só sossego quando me aceito.
Martha Medeiros.
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